17 de set de 2010

A Homossexualidade de Plínio e o Aborto de Marina

|por Marcos Monteiro*|

À medida que multiplico os contatos com as pessoas, diminuo o gosto pelas generalizações, conceitos, dogmas e definições. Para mim, o problema não se esgota no preconceito, a questão é o conceito e mais precisamente, o conceito de “conceito”.



Conceito é um modo de agrupar diferentes seres a partir de suas semelhanças. Algumas tribos não tem o conceito de árvore, desenvolvendo a capacidade de classificar vegetais em agrupamentos menores. As generalizações trazem vantagens e desvantagens. O conceito de cogumelo, por exemplo, abriga comestíveis e venenosos; ir além do conceito torna-se assim questão de sobrevivência.

Quando se trata de seres e comportamentos humanos a questão se complica muito mais. Tenho um amigo homossexual chamado Plínio e conheci uma jovem, Marina, cheia de alegria que em um dado momento de sua vida optou por fazer um aborto. Não são evidentemente o candidato e a candidata à presidência da República, mas a coincidência me faz refletir.

Pretendo votar em Plínio Arruda Sampaio pela sua trajetória de vida e pela juventude de seu partido: muitos jovens amigos meus ainda acreditam em construção socialista e os jovens não viveram o suficiente para se desencantarem. Por causa disso, renovam as nossas esperanças envelhecidas. Nada conheço da vida sexual do Plínio candidato à presidência da república, mas tenho certeza de que se ele fosse homossexual eu já teria sido informado. Ou seja, o conceito de homossexualidade transformaria um ser humano concreto em um outro menos digno, e com menos possibilidade de ser acreditado.

Na minha vivência pessoal, homossexualidade é conceito, generalização e dogma que tentam transformar pessoas bem conhecidas, homens e mulheres com nomes próprios, em cidadãos e cidadãs de segunda classe, sem direitos nem à terra nem ao céu. Quando convivo e converso com eles, quando paro para escutá-los, descubro a variedade de experiências humanas presente em quaisquer grupos de pessoas. Estudam, trabalham, pensam e amam, com direito a corpo, carícias e brilho no olhar.

Os homossexuais cristãos (e existem mais do que supõe a nossa vã eclesiologia), cada vez mais se sentem acolhidos por Deus, crêem e oram, ou rezam, embora muitos tenham sido vítimas de verdadeiras torturas psicológicas, que vão desde a discriminação ao esforço conversionista e até exorcista; na sua imensa maioria esforço danoso e inútil. Por caminhos tortuosos aprenderam a viver a sua vida amorosa de modo libertador, contra todo o esforço religioso e cultural de transformar o seu modo de amar em suspeito e pecaminoso.

Conheço pastores e pastoras homossexuais. São pastores porque cuidam de pessoas, companheiros e companheiras em suas trajetórias existenciais, responsáveis por encorajamento, crescimento pessoal e solidificação da experiência de fé de muita gente. O seu modo próprio de amar não diminui o seu caráter ou a sua generosidade. A coragem de assumir a sua própria vida, pelo contrário, enfrentando preconceito e até violência física e verbal, às vezes os tornam mais sensíveis e eficazes diante das surpresas da vida.

Tudo isso faz pensar e ainda tem a história do aborto de Marina, mas isso merece uma continuação nesse mesmo espaço, combinado com o CEPESC, na próxima sexta-feira. 

Feira de Santana, 10 de setembro de 2010



No texto da semana passada, aproveitei a homossexualidade do meu amigo Plínio, que não é o presidenciável do PSOL, em quem pretendo votar, para discutir a questão homossexual. E recordo agora o aborto de Marina; não é a candidata do PV também, nem sei se seu sobrenome é Silva, mas bem poderia, até porque dilemas sobre aborto estão mais próximos das silvas do que de outros sobrenomes mais confortáveis.

Não sei se há trabalho mais maçante do que o bancário. Para o meu jeito inquieto e minha formação crítica, trabalhar na Caixa Econômica Federal, nos anos oitenta, seria menos privilégio e muito mais circunstância: era o jeito. Assim que pude me livrei desse fardo. Aliava a isso a sensação de que trabalhava contra o cidadão comum, alimentando o sistema bancário, ainda mais lembrando de Bertrand Russell a afirmar que banco, em si, era crime muito maior do que assalto a banco.

Marina era uma cliente que tornava as nossas tarde bancárias menos monótonas, com a sua exuberância jovem e sua alegria contagiante. Lembro de Clemildo, a cara sempre feia e sempre fechada se desmanchando em sorrisos abertos pela irreverência da menina. Porque era uma menina, nos seus dezenove anos, disposta como toda jovem a descobrir as estradas da vida, programada para a alegria e para a paixão. Uma segunda-feira, Marina não apareceu e a tarde ficou mais triste; e não compareceu nunca mais.

Somente alguns dias depois soubemos da morte de Marina (que seria ou não seria da Silva). Morreu ao tentar aborto em clínica clandestina, vítima de bisturi açougueiro, migrando de uma mesa cirúrgica mal aparelhada para as estatísticas desumanizantes. Tornou-se número, definição, conceito, generalização, dogma, coisas que já afirmei me interessarem bem menos que as pessoas humanas, as Marinas e os Plínios dos descaminhos da vida.

Se essa historinha serve de ilustração tanto aos militantes que são contra quanto aos que são a favor do aborto, ela nos remete às situações humanas e às decisões existenciais em situação limite, onde os nomes próprios valem mais. E as decisões sobre enfrentar uma gravidez não planejada ou realizar um aborto surgem para mulheres de todas as classes sociais, em diversas circunstâncias, por diversos motivos.

A discussão sobre ética não se resume na opção plebiscitária, contra ou a favor, bem ou mal, mas existem os adiáforos (os tanto faz). Ainda mais, as decisões não se estabelecem sempre entre bem ou mal, o chamado conflito ético, quando é assim é fácil decidir. O problema maior é decidir entre dois bens ou entre dois males, o chamado dilema ético. Isso sempre acontece em situações limites, costumeiramente onde o aborto se apresenta.

Novamente, quero evitar a discussão filosófica sobre direitos do embrião, ser potencial e ser atual (conceito meio aristotélico), realidade e idealidade, existência enquanto história, e me concentrar na questão da saúde pública e da legislação sobre o aborto. No caso específico de Marina, houve não somente um aborto, mas dois abortos. Marina abortou a criança e a sociedade, como um todo, abortou Marina. Morreram um feto, criança que viria a existir, e uma jovem (quase adolescente) pessoa que já existia. A criminalização não resolveu (e a fiscalização não resolveria) a questão em pauta. Mulheres decidem abortar, apesar da legislação atual e da vigilância punitiva dos religiosos.

Não conheço ninguém, em sã consciência, que seja favorável ao aborto em si. Mas conheço muitas mulheres que praticaram o aborto (sempre em meio a muita dor e levando todo o processo decisório em enlouquecedor silêncio). Aprendi a compreender o movimento católico “Mulheres pelo direito de decidir” e as militantes que percebem que a decisão nem sempre é sobre aborto ou não aborto, mas sobre qual aborto se pode escolher em situações concretas de pessoas com nome próprio.

Não estou do lado do aborto (esse conceito onde cabe tanta história), estou do lado dessas pessoas, mulheres em suas angustiantes decisões. Por isso, sou favorável à descriminalização do aborto e a políticas públicas que garantam acompanhamento psicológico e assistência médica às mulheres que optaram pelo aborto. Em vez dos conceitos, das generalizações e dos dogmas estou do lado dos plínios e das marinas, em suas vivências complexas.

Recife, 17 de setembro de 2010

*Marcos Monteiro é assessor de pesquisa do CEPESC. Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA. Também é coordenador do Portal da Vida e faz parte das diretorias do Centro de Ética Social Martin Luther King Jr. e da Fraternidade Teológica Latino-Americana do Brasil

CEPESC – Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão.

E-mail: cepesc@bol.com.br, Site: www.cepesc.com. Fone: (71) 3266-0055. Veja esse texto também no blog http://www.madoniram.blogspot.com/ e www.informativo-portal.blogspot.com. 


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