28 de jul de 2011

As mais oprimidas dentre as oprimidas tem cor, gênero e endereço.

Por Luka Franca
Vez ou outra posto por aqui sobre a necessidade de articular as pautas feministas com o marxismo, algo que teoricamente se denomina feminismo socialista. Porém hoje vou tentar escrever sobre algo que muito me intriga, mas ao mesmo tempo não tenho acúmulo algum. Para quem não sabe hoje é o Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha e acredito ser um bom momento para tentar traçar algumas linhas sobre a necessidade das lutas feministas, antirracistas e socialistas necessitarem caminhar juntas, ainda mais em um país como o Brasil, pois boa parte da nossa classe trabalhadora é mulher e é negra.
É importante lembrar que mesmo com o formalismo de que racismo é crime e algo que não deve ser aceito socialmente aceito ainda nos deparamos com declarações como a do senador do DEM Demóstenes Torres afirmando que a miscigenação no Brasil foi fruto do consetimento das escravas ao se deitarem com os sinhozinhos. Negamos o racismo institucional e velado em nosso Brasil e sua pretensa democracia racial.
No Brasil e na América Latina, a violação colonial perpetrada pelos senhores brancos contra as mulheres negras e indígenas e a miscigenação daí resultante está na origem de todas as construções de nossa identidade nacional, estruturando o decantado mito da democracia racial latino-americana, que no Brasil chegou até as últimas conseqüências. Essa violência sexual colonial é, também, o “cimento” de todas as hierarquias de gênero e raça presentes em nossas sociedades, configurando aquilo que Ângela Gilliam define como “a grande teoria do esperma em    nossa    formação    nacional”,    através    da    qual,    segundo    Gilliam: “O papel da mulher negra é negado na formação da cultura nacional; a desigualdade entre homens e mulheres é erotizada; e a violência sexual contra as mulheres negras foi convertida em um romance”.
O que poderia ser considerado como história ou reminiscências do período colonial permanece, entretanto, vivo no imaginário social e adquire novos contornos e funções em uma ordem social supostamente democrática, que mantém intactas as relações de gênero segundo a cor ou a raça instituídas no período da escravidão. As mulheres negras tiveram uma experiência histórica diferenciada que o discurso clássico sobre a opressão da mulher não tem reconhecido, assim como não tem dado conta da diferença qualitativa que o efeito da opressão sofrida teve e ainda tem na identidade feminina das mulheres negras. (CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: A situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero)
O debate sobre combate às opressões em geral é muito deficitário junto a esquerda socialista, normalmente temos uma postura de que há as pautas gerais e as lutas anexas que podem ser rifadas a qualquer momento pois são a cereja do bolo socialista, quando não o são, pois sem uma disputa para além do debate econômico não conseguimos avançar na organização e disputa da sociedade de uma forma que realmente combate a opressão e desconstrua a ideologia patriarcal, racista e capitalista arraigada na nossa sociedade.
São as mulheres negras e latinas as mais exploradas nos países de “primeiro mundo” com empregos precarizados e muitas vezes fugindo dos agentes de imigração para não serem deportadas e criminalizadas, no Brasil não é tão diferente. Milhares de bolivianos, principalmente mulheres, entram clandestinamente em nosso país e acabam sendo escravizados em confecções e outros trabalhos.
Pela primeira vez, o Estado brasileiro concluiu uma fiscalização trabalhista que resultou no resgate efetivo de imigrantes submetidos à escravidão em ambiente urbano. Em nenhuma das operações anteriores com flagrante de trabalho escravo de estrangeiros nas cidades, houve a retirada dos trabalhadores dos locais em que foram encontrados. Desta vez, a decisão dos agentes públicos foi pelo resgate para proteger os direitos das vítimas.
Atraídas pela tentadora promessa de bons salários, duas trabalhadoras bolivianas atravessaram a fronteira e acabaram obrigadas a enfrentar um cotidiano de violações à dignidade humana, que incluía superexploração, condições degradantes, assédio e ameaças. (PYL, Bianca e HASHIZUME, Maurício. Costureiras são resgatadas de escravidão em ação inédita. Repórter Brasil)
Ao mesmo tempo que as mulheres negras de nosso país amargam os postos de trabalho mais precarizados, são empregadas domésticas, serventes, babás, atendentes de telemarketing e ainda voltam para suas casas após enfrentarem trens, ônibus e metrôs lotados e com preços abusivos para cumprirem outra jornada de trabalho em suas próprias casas cuidando de seus próprios filhos, cozinhando para a família e muitas vezes lidando com companheiros abusivos.
Virar as costas para este debate é reafirmar que estas mulheres não existem, que são invisíveis e suas necessidades não são reais. São devaneios daqueles que constroem teorias da conspiração a torto ou a direito. Mas quem se importa com as marginalizadas da sociedade, não? Nasceram escravas e assim morrerão. Sem direitos, sem o FGTS saber que elas um dia existiram, sem poder tirar férias e viajar como é assegurado para outros trabalhadores. Você pode virar e dizer que na sua casa não é assim, que a sua empregada especificamente ganha todos os direitos, FGTS e o escambau, mas em um país onde há mais de 6 milhões de empregadas domésticas e um pouco mais de 1 milhão dessas tem a carteira assinada, na realidade concreta da maioria das domésticas do país o trabalho ainda é sub-remunerado, sujeito à maus-tratos e assédios em geral. Se eximir pelo fato de estar cumprindo a lei e não debater também a equiparação de direitos entre as domésticas e as outras categorias do país é também virar as costas para esta categoria importante que faz justamente aquele trabalho que para o capitalismo e patriarcado não possue importância real: o trabalho reprodutor. (FRANCA, Luka. Seja empregada doméstica ou tercerizada a sina é a mesma: Insibilidade. BiDê Brasil)
O Brasil tem conta grande com o povo negro por anos de escravidão e expropriação, não podemos negar que quando falamos de criminalização da pobreza falamos também de extermínio da juventude negra e no sofrimento de milhares de mães que tem seus filhos executados nas periferias brasileiras, não podemos negar o quanto o estado brasileiro é misógino e racista, mesmo com todo este formalismo existente atualmente quando analisamos de perto os dados das pesquisas e traçamos um perfil de quem hoje mais sofre com este sistema veremos a cor e o gênero da nossa classe, ignorar isso é colcoar de lado lutas e debates que nos ajudam a vencer a luta de forma mais completa ao invés de buscar atalhos – e convenhamos a esquerda está bem habituada a buscar atalhos.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que, embora a taxa de desemprego tenha caído ao longo dos últimos nove anos e chegado a 6,2% em junho, a menor para o mês desde 2002, a desigualdade de oportunidades permanece. As mulheres encontram mais dificuldade em ocupar cargos e, quando conseguem, ficam geralmente em postos considerados inferiores. Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego, o índice de desocupação é de 5% entre os homens, mas salta para 7,6% com as mulheres. O salário médio deles, de R$ 1.770,40, é 40,8% superior ao delas, de R$ 1.257,10.
Quando a análise inclui cor e sexo, a realidade ganha novos contornos. Entre os homens brancos, o índice de desocupação é de 4,4%, menor que a média nacional. Para as mulheres negras, ele mais do que dobra: salta para 9,2%. “Os empregadores falam que vão ligar, mas o telefone nunca toca. Até fico desanimada”, desabafa Josefa. Para sustentar a casa, que divide com uma amiga, ela tem de fazer malabarismo. “Faço algumas diárias. Em média, tiro R$ 600. Só o aluguel é R$ 370.” Segundo o economista José Márcio Camargo, da Opus Investimentos, o empregador tem a ideia de que, por ter jornada dupla, a mulher pode ser menos produtiva. (O país onde mulher negra não tem vez. Portal Geledés)
Talvez estejamos tão viciados em uma forma apenas de pensar a política que acabamos por nos deixar escapar o óbvio nas análises de conjuntura e interveção de política junto a sociedade, até por que nascemos em fomos criados em um mundo onde os debates são feitos de forma fragmentada e quando começamos a dar passos para conseguir reunir as caixinhas diversas existentes acabamos sem saber o que fazer e caindo em esparrelas de pautas mais importantes que outras.
Pois seja no ambito do trabalho, saúde, educação, segurança e tantos outros temas caros aos debates gerais de nossa sociedade quando vemos que está ali na base não tendo acesso a praticamente nenhum direito e ainda sendo superexplorada estão as mulheres latinas e negras. Então quando a Action Aid propôs uma Blogagem Coletiva hoje sobre o projeto deles Mulheres do Brasil me dei conta o quanto falar sobre o dia de hoje e a necessidade do feminismo negro e o combate a violência contra mulher estão na exata convergência do que acredito de construção para uma outra sociedade, com um programa político no qual tenha em sua coluna vertebral as pautas das mulheres e sobretudo das mulheres negras. Um socialismo antimachista e antirracista.

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