18 de jun de 2012

Desconstruir as organizações de esquerda é tarefa da direita, não nossa.

Por César Fernandes*
Na tarde de hoje, recebemos através da mídia os informes de que o nosso partido em Resende-RJ está pleiteando alianças eleitorais com PP, DEM e PSDB para as eleições majoritárias e com outros partidos como PRTB, PCdoB e PSC nas eleições proporcionais (“RJ: Psol fecha aliança inusitada com DEM e PSDB em Resende –http://noticias.terra.com.br/eleicoes/2012/noticias/0,,OI5842908-EI19136,00-RJ+Psol+fecha+alianca+inusitada+com+DEM+e+PSDB+em+Resende.html). Imediatamente membros de coletivos anarquistas, de partidos da base do governo e do próprio PT começaram a compartilhar a matéria da imprensa burguesa com piadas e gracejos sobre a “incoerência do PSOL” em aliar-se a estes setores. Mas o que isto demonstra?

  1. Ignorância e desconhecimento sobre o projeto político do PSOL.

Apenas quem não conhece o PSOL e a sua dinâmica interna, seu funcionamento e processos de construção entre as suas diferentes correntes internas pode fazer uma agitação desta forma. O PSOL é um partido que, dentro da esfera da esquerda socialista brasileira, representa hoje uma das maiores experiências em termos de organização partidária. Nasceu da síntese de agremiações políticas e militantes independentes com projetos diferentes e que buscavam um espaço de construção coletiva com democracia interna e respeito às posições e concepções. Desta forma, existem no partido diferentes posições sobre a forma como devem intervir os socialistas na construção política cotidiana. Os espaços que centralizam as diferentes posições são os Congressos (municipais, estaduais e nacional) do PSOL, quando são propostas, debatidas e eleitas as diretrizes que norteiam a construção programática e metodológica do nosso partido. O PSOL aprovou – em seu III Congresso Nacional – uma política de alianças que impede a associação com partidos da burguesia da forma como foi deliberada pelo Diretório Municipal de Resende-RJ. Qualquer aliança que exceda à Frente de Esquerda (PCB + PSTU) deve ser debatida, analisada e aprovada – ou não – pelo Diretório Nacional do PSOL. Para além disso, alianças com partidos como PSDB e DEM não apenas devem ser negadas como repudiadas. Estes são partidos que expressam uma politica reacionária e anti-povo e são inimigos do PSOL. Se o Diretório Municipal de Resende-RJ aprovou uma coligação desta, o PSOL não exitará em barrá-las. Neste caminho, qualquer militante de outra organização que acompanhe responsável e fraternalmente a construção do PSOL deve compreender que mesmo que esta aliança fosse levada adiante, isto representaria uma derrota para toda a classe trabalhadora e não apenas para o PSOL. É importante refletir sobre isso.


  1. Deslegitimar o PSOL de forma despolitizada é fazer o jogo da direita e da burguesia.

Compreendemos que com o nível de fragmentação das organizações da classe trabalhadora, nossas diferenças políticas ficam muito ressaltadas. É muito comum que construamos nossas intervenções políticas numa lógica de diferenciação entre nossas posições e as de outras organizações. Este processo é natural, mas não pode ser feito de forma sectária, autoproclamatória e principalmente: despolitizada. As críticas que recebemos por conta do processo de Resende-RJ foram, em sua imensa maioria, agitações. A que isto serve? Talvez para coesionar as bases de seus coletivos (o que achamos lamentável porque acreditamos que nossos militantes devem estar convencidos em marcos políticos e programáticos de nossa atuação), talvez para expiar algumas das críticas que costumam receber (por exemplo no caso de setores do PT que realizam uma construção militante séria dentro daquele partido que, em Curitiba, se alia com a burguesia tanto no movimento quanto nas eleições). No entanto, gostaríamos de complexificar este debate: acreditamos que deslegitimar o PSOL sob bases tão superficiais significa fortalecer a direita. Não é a troco de nada que as informações sobre a política de alianças de Resende-RJ vieram inicialmente veiculadas pela mídia burguesa. Nossos inimigos de classe contentam-se ao provocar fissuras nos partidos e coletivos da esquerda e isto não é novidade para ninguém. Subscrevendo estas críticas formuladas pela direita sem conhecer a realidade do partido que criticam, os militantes destas organizações não apenas atacam o PSOL, mas atacam os trabalhadores e seus instrumentos de luta e organização. Sabemos que o PSOL não é a única organização de esquerda do país tampouco é a estrela-guia da revolução socialista, mas sua contribuição para o processo de reorganização dos trabalhadores em todos os campos, desde a juventude urbana aos trabalhadores do campo é inquestionável. Reafirmamos cotidianamente – e o fazemos nestes tempos de disputa fratricida – a necessidade de estarmos aliados àqueles que sentem com o povo as suas dores tanto no movimento quanto nas eleições. Chamamos à responsabilidade a todos os militantes e campos da esquerda para que construamos uma nova cultura política, sustentada em bases fraternas e militantes e não na desconstrução mútua de nossas organizações. Todos juntos somos fortes! Nos propomos a debater nossas diferenças, mas isto deve ser feita de forma responsável e propositiva.

  1. A necessidade de identificarmos nossos reais inimigos e projetar um enfrentamento unitário e consistente a eles.

A direita vem crescendo a passos largos, companheiros. A cada momento incorporam-se a elas os setores mais reacionários da nossa sociedade, formulando um projeto de destruição, perseguição e repressão às organizações de esquerda. A mídia burguesa amplia seu poder de formação de opinião e de propagação dos maiores retrocessos e a nossa militância cotidiana – feita das diferentes formas que nossas organizações dão conta – é invisibilizada, quando não deslegitimada, desconsiderada. Qual deve ser então, nossa posição? Nós do PSOL acreditamos que apenas com a unidade de diferentes setores militantes poderemos avançar na construção de um processo revolucionário. É óbvio que não devemos desconsiderar a necessidade de fortalecermos nossas agremiações políticas, mas isto não deve se colocar acima da construção de uma política que efetivamente incida na disputa com a burguesia, senão estaremos sendo irresponsáveis, inconsequentes. Se não é possível que estejamos juntos em militâncias ou nas eleições, devemos construir uma referência positiva em torno de nossa atuação e não apenas em detrimento da organização do outro. Esta disputa fratricida não contribui para nada senão para afastar novos militantes que acreditam que a esquerda é mesquinha e para diminuir ainda mais a ressonância que um discurso que enfrente a direita poderia ter. Aceitamos críticas e negações à nossa forma de intervir e ao nosso programa, mas convidamos a todos e todas para que o façam de forma politizada, propositiva e coerente com a realidade que vivem em suas organizações. Apenas assim avançaremos na construção de uma nova sociedade, com novas relações e que deem conta das tantas necessidades e anseios da classe trabalhadora.

* César Fernandes é psicólogo e membro do Núcleo de Saúde do PSOL Curitiba. Também é Secretário de Comunicação do Diretório Municipal do PSOL Curitiba.

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