12 de set de 2013

ANEMIA FALCIFORME, SAÚDE E POLÍTICA


Pouco mais de um mês e meio atrás, ainda no contexto das manifestações do vempraruafsa, uma audiência na Câmara de Vereadores de Feira de Santana foi interrompida por uma ocupação. Na oportunidade, a urgência da discussão trazida pelos manifestantes, a péssima situação do transporte público, abafou a repercussão adequada do tema em debate com os pouquíssimos vereadores presentes no dia: a dramática realidade de quem tem anemia falciforme no nosso município. A doença é genética, não tem cura e acomete especialmente a população negra, o que agrava a vulnerabilidade dos portadores já que infelizmente as famílias negras ainda apresentam os piores indicadores sociais do país. Além da imunidade também ser comprometida, há a possibilidade de desenvolvimento de complicações renais, cardíacas e, principalmente, ósseas. Embora incurável, a anemia falciforme pode ser tratada para garantia de uma boa qualidade de vida e ampliar a expectativa de vida, o que depende de políticas públicas específicas. A Bahia tem a maior ocorrência nacional de casos, bem como Feira tem por volta de duas centenas de portadores cadastrados e inúmeros sem qualquer acompanhamento específico. Após uma longa pressão da Associação Feirense de Pessoas com Doenças Falciforme (AFADFAL) e de pesquisadores da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), o poder público municipal deu alguns passos para reverter a omissão histórica sobre o assunto. Dessa forma, somente em agosto de 2012, foi criado um Centro de Atenção a Portadores da Doença Falciforme, com funcionamento provisório no Centro Social Urbano (CSU), na Cidade Nova.

Apesar das várias limitações materiais e de profissionais, o Centro de Atenção se constituiu em uma conquista importante que possibilita algum acompanhamento especializado e reduz a necessidade de viagens penosas a Salvador. Porém, em janeiro, uma das medidas iniciais do atual prefeito foi “desmontar” o Centro com a demissão de seus profissionais (Situação fruto da maioria de vagas da área de saúde ser fruto de indicação política). Foi no contexto desse descaso e do risco de reversão de suas conquistas mínimas, que os portadores de anemia falciforme reivindicaram na Câmara uma real política pública que os atenda. A falta de informação ampla e acessível faz que muitas pessoas só sejam acompanhadas adequadamente muito tarde, agravando problemas de saúde que poderiam ser evitados. Muitos profissionais de saúde não têm formação para perceber e encaminhar casos de anemia falciforme adequadamente, bem como a morosidade das consultas e exames não raro leva à complicações graves para os portadores. Não à toa, a AFADFAL tem o que lidar com a morte freqüente e prematura de seus associados (Somente este ano, já faleceram cinco pessoas).

Recentemente, no último dia 27, a Câmara de Vereadores aprovou a criação do Programa de Promoção e Atenção Integral às Pessoas com Doenças Falciformes (Projeto de lei nº 92/13). O Programa tem objetivos amplos, da educação à assistência. Resta saber se tornará realidade ou, na prática, enfrentará os mesmos problemas de “prioridade” do Centro de Atendimento: acesso difícil aos medicamentos, transporte para tratamento inadequado e desconfortável, pouco acompanhamento da assistência social e, especialmente, falta de previsão orçamentária própria. É claro que quem tem anemia falciforme vive dentro da realidade da maioria da população que precisa do Sistema Único de Saúde (SUS), sofrendo com o baixo investimento público em saúde, privatização e o controle de exames e consultas pelos “donos” políticos dos postos de atendimento. Contudo, é em casos de doenças crônicas como anemia falciforme que a falta de prioridade e corrupção da saúde pública revela de modo claro a sua face mais perversa: como a doença não espera, milhares de pessoas são mortas diariamente pela velha política que domina Feira e o restante da sociedade brasileira.

Jhonatas

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