13 de mar de 2011

"A INVISIBILIDADE DA CRÍTICA PRODUZIU MUITO DANO À REVOLUÇÃO VENEZUELANA"


Entrevista com Reinaldo Iturriza, sociólogo

- Você se sente co-responsável pela revisão empreendida dentro do PSUV?
- Sim, mas somente na medida em que a postura pública que assumi tenta resumir e transmitir as críticas, propostas e também o mal estar de muitos companheiros e companheiras que militam no partido, ou que militam na revolução Bolivariana sem pertencer ao partido, e para os quais resultava tão evidente a necessidade desta revisão, que não podiam compreender porque se seguia postergando. Ou seja, minha voz é só uma de muitas, e só tem importância na medida em que contribui para a multiplicação de vozes.


-A seu juízo, o PSUV havia se distanciado do povo?
- Sim. Em primeiro lugar, se produziu um perigoso distanciamento entre os órgãos de direção e as bases do partido. Logo, entre o partido e o povo. Terminou impondo-se a lógica partido/máquina, segundo a qual o propósito fundamental do partido é ganhar eleições, sem importar se recorria a praticas clientelistas ou simplesmente demagógicas. Se foi acentuando a tendência à burocratização da política. O partido foi se desvinculando progressivamente das lutas populares, desconhecendo a existência do movimento popular. Aqui chegou a suceder, por exemplo, que o movimento popular organizava alguma manifestação e o partido tentava persuadir sua militância para que não participasse, ou organizava alguma manifestação paralela. Esta soberba, esta chantagem, este tipo de pressão para monopolizar a política revolucionária produziu um dano terrível ao movimento popular, e os resultados vemos agora: desmobilização, desarticulação e até fastígio pela política. Tudo se fazia em nome de Chávez. O pior é que o partido/máquina demonstrou que não é capaz nem de ganhar as eleições. Não comparto a tese de que os resultados eleitorais, em casos adversos se explicam pela falta de formação política da população. Ao contrário, creio que a maioria da população tem bastante claro a que políticos rechaça e qual é a política que deseja fazer. É o partido que tem que se colocar a altura do povo.

- Pode-se falar de uma ressurreição dos partidos políticos da Quarta República pelos erros do partido da revolução?
- Até onde eu analisei, a perda de apoio à Revolução Bolivariana não se traduz em um aumento de apoio à velha classe política. Esse é o grande problema da oposição: que nenhum de seus partidos goza de verdadeiro respaldo popular. Até agora não existe algo como migração da base social do chavismo às fileiras da oposição, e se existe, é pouco significativa. Entretanto, também é certo que o voto contra Chavez vem crescendo lenta, mas de forma sustentada. Não são dados em absoluto contraditórios: há que lembrar que em cada distrito eleitoral aumenta o número de eleitores. O voto opositor é constante, e aumenta com o padrão eleitoral, ao mesmo tempo que o voto do chavismo é variável: sobe, baixa, volta a subir. Este quadro de forças, digamos, é o que explica o esforço que realiza uma parte da oposição para emplacar um discurso “social”, tentando apropriar-se de algumas idéias-força do discurso chavista: participação, poder popular, etc. Depois das eleições parlamentares, parte da oposição está convencida de que pode ganhar o apoio de parte da base social do chavismo, imprescindível pra poder derrotar a Chávez em 2012.

- As Linhas Estratégicas do PSUV acolhem ou não o que você havia exposto em suas reflexões?
- Sim, parte, mas mais que esta coincidência, o documento desenvolve outras linhas de análises que considero imprescindíveis. No ponto quatro, por exemplo, se lê que o partido “não pode ser identificado como um apêndice do Estado, mas como um instrumento que acompanha o povo em suas lutas”. A não demarcação de uma linha clara entre o partido e o Estado é a fonte de muitos vícios políticos: clientelismo, assistencialismo, nepotismo e corrupção. Um partido que se confunde com o Governo é um partido impossibilitado de impulsionar o controle popular da gestão. Vimos isto com as eleições primárias: candidatos impostos por governadores ou prefeitos, quando as candidaturas de um partido revolucionário deveriam vir das bases. O detalhe está em que se devem criar as condições para que as bases realmente tenham voz e voto.

- Você faz alusão ao chavismo originário. Que é em sua opinião o chavismo originário? É possível recuperá-lo?
- Isto do chavismo originário acarreta muitos equívocos. Não creio e nunca foi minha intenção colocar que exista algo parecido a uma essência do chavismo que teriam só que recuperar para resolver nossos problemas. Em todo caso, me referia à necessidade, por exemplo, de relembrar que o chavismo dos primeiros anos não ocultava sua profunda preocupação com relação aos partidos políticos. O chavismo se insurgiu contra a partidocracia, e inclusive contra a esquerda tradicional, contra seu dogmatismo. Então, quando falava de chavismo originário, queria chamar a atenção sobre os riscos que implicava o singular processo de partidarização do chavismo, sobretudo de 2007 para cá, e que a meu juízo terminou se expressando no disciplinamento forçado de um conjunto de sujeitos realmente bravos e insubmissos. Muitos companheiros e companheiras temiam este desenlace, e não se incorporaram ao partido. Sobre eles choveram uma infinidade de acusações: traidores, anarcóides, etc. A estas alturas, penso que ficou suficientemente claro que o chavismo não é uma massa uniforme que se veste de vermelho para comparecer a uma concentração, que é o sonho dos partidários da lógica do partido/máquina: o chavismo como massa de manobra. Também ficou claro que existe chavismo mais além do partido. Há companheiros que inclusive preferem não falar de chavismo, o que não implica que não sejam revolucionários, e penso que estão em todo o seu direito.

- E a chamada repolitização. Vale para o PSUV, vale para a oposição?
- A repolitização tem que ver principalmente com a gestão de governo, mais que com o partido. Há múltiplas evidências de um importante giro discursivo opositor desde 2007, logo do triunfo de Chávez nas presidenciais de 2006. Desde então, e progressivamente, boa parte da oposição foi deixando de lado o discurso confrontacional e violento, e se concentrou, sobretudo, na crítica da gestão de governo. Esta tática discursiva adquiriu maior força em 2008, logo da tentativa frustrada de aprovar a reforma constitucional. Para a oposição, o que havia sido derrotado era o socialismo. Segundo o discurso opositor, o socialismo implicava um excesso ideológico, uma abstração, que não contribuía em nada para a resolução dos problemas concretos da população. Se a esse excesso de ideologia se somam a denúncia da ineficiência governamental, tens o núcleo do discurso opositor desde então. Qual é o problema? Que o governo tardou muito tempo em decifrar este importante giro tático discursivo. Ao contrário, respondeu gestionalizando a política, concentrando quase todo o esforço em demonstrar as conquistas da Revolução Bolivariana, mas sobretudo, e aqui está a chave, inviabilizando a crítica popular, as demandas e lutas populares. É completamente certo que o Governo está na obrigação de difundir suas conquistas, e é igualmente certo que a oposição é incapaz de reconhecer qualquer conquista governamental, que além de tudo são muitas. O que não se pode fazer, em nenhum caso, é condenar e despachar a crítica popular, sob o argumento de que assim se dão armas ao inimigo. A inviabilização da crítica produziu muito dano à Revolução. Na medida em que Chávez retoma a interpretação popular, promove e instiga a crítica popular da gestão de governo, nesta medida está repolitizando a gestão.

- Como entende a repolarização no contexto de uma sociedade em que supostamente existe chavismo-antichavismo?
- Quando falo de repolarização, da necessidade de reconhecer – para ser capaz de superar – a crise de polarização chavista, me refiro ao conjunto de táticas orientadas a recuperar os mecanismos de interpelação mútua entre Chávez e a ampla base social do chavismo, mas também entre o Governo, o partido e o povo. Porque crise de polarização? Justamente porque se desestimou, durante um bom tempo, o peso, a importância da interpelação popular. A crítica foi silenciada, muitos problemas foram subestimados e isto produziu mal-estar, cansaço, desmobilização popular. Ao contrário das interpretações que se fazem desde a oposição, a idéia de repolarização não implica promover o ódio de classes. Nem nada do estilo. Se trata, em primeiro lugar, de aprofundar a democracia internamente no chavismo: que Chavez mande obedecendo, que o governo se abra à interpelação popular, que as bases adquiram protagonismo no partido. Neste sentido que falo da radicalização democrática: o chavismo constitui, sem dúvida, a principal força política do país, e tudo o que aponte a sua democratização, contribuirá não só para a sua consolidação como força política, mas também para a democratização da sociedade venezuelana. O antichavismo, ou uma parte da oposição sabe muito bem disto, por isso empreendeu sua própria tática de repolarização: adotando um discurso social, reivindicando inclusive o poder popular, ou a necessidade de diálogo, em contraste com o ódio de classes que supostamente promove Chavez. Desta maneira tenta somar forças, captando parte do chavismo descontente. Não estranhe ao vê-los falando, muito brevemente, de interpelação popular.

- Você diz que é um erro entrar em uma briga com a partidocracia. Pode um partido político como o PSUV não ser parte da partidocracia?
- Em primeiro lugar, o conflito contra a partidocracia é inevitável. Em segundo lugar, o PSUV está na obrigação de não reproduzir a mesma velha lógica excludente e anti-popular da velha classe política. Ao que me referi em várias oportunidades é a necessidade de não entrarmos em uma luta inútil com a oposição.
A luta tem que ser em primeiro lugar com o povo e junto ao povo. Para ilustrar, poderíamos falar de nossos meios de comunicação públicos: durante muito tempo temos concentrado nossos esforços em desmontar as matrizes dos meios antichavistas, enquanto inviabilizavam as demandas populares. Falemos agora da Assembléia Nacional: tanta expectativa com a primeira intervenção de Maria Corina Machado, e resultou em um completo fiasco. Poucas pessoas estão atentas ao que têm a dizer os deputados da Ação Democrática. A Assembléia tem sentido na medida que funciona como caixa de ressonância das lutas e demandas populares. Do que resulta que a prioridade de nossos deputados não pode ser responder aos copeyanos, que não sei se têm deputados na Assembléia, mas fazer real a consigna do povo legislador. No caso contrário, nosso povo dedicará a nossos deputados a mesma atenção que dedica a Andrés Velasquez: nenhuma. Igualmente sucede com os meios públicos. Não falam dos problemas dos bairros, dos jovens, das prisões, dos policiais, juízes e fiscais corruptos. Por que não se coloca em debate a Lei do Inquilinato? São milhões as famílias venezuelanas que vivem de aluguel. Esse seria, sem dúvida, um debate que despertaria muito interesse. Mais que ostentar o mandato, nossos deputados têm que exercê-lo. Ser maioria. Mas isso só é possível escutando as maiorias populares, e isso inclui as venezuelanas e venezuelanos que estão contra Chavez.


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