10 de set de 2011

Feminismo e a ‘neutralidade’

Professora jamaicana.
Tenho algumas professoras que já  se declararam feministas e pautam suas aulas por esse tema, sempre tentando relacioná-lo com o assunto que está sendo dado em aula. Alguns alunos reclamam dizendo que ela fica defendendo uma ideologia. Fazem piadas do tipo: ‘ah! basta se mulher e estará aprovada na matéria dela’. Parecem realmente se incomodar com o fato de ela ter um posicionamento e defendê-lo.
A questão é que o machismo existe. É perceptível e latente, ninguém precisa falar da sua existência para sabermos que ele está lá. Não é o mesmo com o feminismo: se não falamos dele, simplesmente passa batido, afinal não é o padrão hegemônico. Tudo que foge à regra precisa ser debatido para existir, para ocupar o seu lugar. É preciso que ele seja introduzido, das mais diversas maneiras, para que possa ser pautado.
Recentemente, a presidenta Dilma ‘adiou’ o Kit Anti-Homofobia alegando que ‘não faria propaganda de opção sexual (sic)’. É muito claro que não se trata de propaganda. A heterossexualidade não precisa ser discutida, já está posta no mundo; sua existência não é desconhecida de ninguém. Ao contrário, a homossexualidade é encarada da maneira errada pelos mais variados setores sociais. Quando não falamos sobre ela, quando nos omitimos, abrimos uma lacuna que é automaticamente preenchida pela heteronormatividade.
Não falar sobre o feminismo (ou sobre a homossexualidade) é entendido como uma suposta neutralidade. Mas há de se entender que nada é neutro. Não falar também é uma escolha e que, obviamente, traz consequências. Não é um processo de arrebanhamento, de conquistar militantes para o ‘campo de batalha’ feminista. Trata-se apenas de discutir o assunto, demarcar posições, deixar as opções mais claras para que cada um faça a sua escolha, da forma que achar mais conveniente.
Há ideologia por trás de tudo, até mesmo da ‘falta’ de ideologia. Todas as nossas atitudes são pautadas pelos nossos valores, por aquilo que acreditamos ser mais correto, até mesmo proveitoso. A omissão só traz benefícios para aqueles que tem a posição contrária. Qual é a neutralidade que existe nisso? Aqui também há uma escolha, que é privilegiar aquilo que já está colocado, que já é senso comum. A contradição é condição necessária para o crescimento e para o melhor entendimento do mundo.
Tem muita gente que acha feminista chata porque mete o feminismo em tudo quanto é assunto. Não percebem que ele é verdadeiramente transversal, perpassa (quase) todos os debates. Quando não o relacionamos com os outros assuntos, torna-se apenas uma ideologia vazia e esquecida. É preciso transformá-lo em cotidiano. Só inserido no debate diário é que será possível tirá-lo da gaveta empoeirada da História em que muitas pessoas costumam colocá-lo.
Não há motivos para não falar. Quando fazemos essa escolha, estamos permitindo que o machismo se sobreponha (ainda mais) e ocupe todos os espaços. Precisamos escolher se queremos mesmo ser entendidos, e não só ‘escutados’. Falar e debater é sempre a melhor forma de se fazer entender.
Autor: Marcelo Caetano
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