29 de mar de 2012

QUINZE CENTAVOS DE DIREITOS



Marcos Monteiro*

Todo ano, por esse tempo, na cidade onde moro, Feira de Santana, uma certeza: a passagem de ônibus vai aumentar e os estudantes vão reagir, o máximo possível. As manifestações estudantis são contra quinze centavos a mais propostos por um conselho municipal de transporte a ser examinada pelo prefeito da cidade. Tudo indica que a passagem será de R$2,50 a partir de abril.

Na história das mobilizações, estudantes já deflagraram movimentos capazes de derrubar presidentes e balançar regimes ditatoriais. A movimentação contra aumento de passagem de Feira de Santana permite-nos pensar sobre algumas coisas.

Todo manifestante sabe que o problema não é o preço da passagem, mas passagem de ônibus ter preço. Transporte público gratuito e de qualidade é bandeira maior, embutida nessa pequena luta de quinze centavos. Feira tem um dos piores serviços de transporte do Nordeste e um dos mais caros, basta conferir. E a concessão para transporte urbano passa por aquela típica contaminação entre um setor privado e um poder público manipulado pelos interesses daquele.


No jogo político jogado entre sociedade civil e sociedade política, as mobilizações parecem estar cada vez menores e puntuais, reflexo do avanço avassalador do sistema capitalista. Faz-se a mobilização possível na meta do direito impossível. Na mobilização de quinze centavos organizada pelos estudantes, o pano de fundo maior são os preços de todos os nossos direitos e especificamente o direito de ir e vir.

Quando lemos a Declaração Universal dos Direitos Humanos nos sentimos diante de um excelente cardápio, mas sem os preços afixados.

Lembro de dois episódios ilustrativos. O primeiro, a peça “Liberdade, liberdade”, com a irreverência de Millôr Fernandes e o traquejo de Flávio Rangel, em que o texto brinca com o “preço da liberdade”. Em plena ditadura, sob o olhar de uma censura que torturava de verdade, eles afirmavam teatralmente que o preço da liberdade para o Brasil, fixado pelo FMI, seria de “três portos e dezessete jazidas de minerais estratégicos”.

O segundo, conversando com um adolescente de periferia em Recife, cerca de dez anos atrás, perguntando se ele já havia visitado o Shopping Center. Ele arregalou os olhos e respondeu: “– Não!!! é muito cara a passagem, é um real”. O direito de ir e vir para ele seria de dois reais, uma exorbitância.

São inúmeras as situações que demonstram que o atual sistema econômico e político, no mundo todo, não tem a capacidade de nos assegurar os direitos que prometem. Imigrantes, por exemplo, cada vez mais desfrutam apenas do direito de voltar compulsoriamente. O segundo verso da famosa poesia, “A Pátria”, de Olavo Bilac, “criança! não verás nenhum país como este” tornou-se profecia óbvia para a maioria e para alguns pode ser atualizada como “não verás nenhum bairro como este”. Culpa de preços de passagens.

Falta um direito na Declaração Universal: o direito de lutar por direitos. Esse, os estudantes exerceram, nos deixando essa insistente lição. Em um mundo de desesperança e acomodação não podemos abandonar nenhuma luta. Sempre é preciso lutar, mesmo que seja por quinze centavos de direito.

Feira de Santana, 23 de março de 2012

*Marcos Monteiro é assessor de pesquisa do CEPESC. Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA. Também faz parte das diretorias do Centro de Ética Social Martin Luther King Jr. e da Fraternidade Teológica Latino-Americana do Brasil
CEPESC – Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão. E-mailcepesc@bol.com.br, site www.cepesc.com.

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