18 de jan de 2012

A Quem Desinteressar Possa - Por Marcos Monteiro

Por Marcos Monteiro*

Vivemos a história ocidental na região demarcada pelo verbo ser. O que somos, fomos, seremos, tem definido programas, prioridades e organizado o nosso cotidiano ao nível das diversas relações. O nosso ser está cada vez mais definido pelo presente do indicativo na primeira pessoa: sou. Daí a pergunta competente presente nos conflitos maiores e menores: “Você sabe com quem está falando?”.

Na filosofia, o verbo ser se torna substantivo e a questão do ser central. “Por que o ser e não o nada?”. Pergunta nunca abandonada, retomada ciclicamente, abrandada pela análise do existente, o ser humano concreto em sua dimensão temporal, pensado a partir do seu cotidiano pelo alemão Heidegger. Desse modo, em vez da dureza do “ser”, a construção do “sendo”, ser que se vai construindo em uma história nunca terminada.


Viver em torno do “ser”, para Lévinas, é nunca abandonar a região do inter-esse e esse teria sido o problema da civilização ocidental. Na sua experiência infantil o ser era aterrorizante e parecia opaco, para onde se voltava havia a força ameaçadora do ser. À medida que procura brechas no ser, distensões, afastamentos, esquecimentos, percebe o “outro” que nos antecede na região do ser, o que nos torna fundamentalmente éticos. Em filosofês, o outro nos precede na região do ser, ou a ética é anterior à ontologia; a ética seria a verdadeira filosofia primeira.

No caso concreto da sociedade brasileira, temos o problema da dissociação entre ética e política. Na Grécia clássica, política é o momento maior da ética. Mas claro que o século XXI não tem nada a ver com eras clássicas e há uma distância muito grande entre o Brasil de Cabral e a Atenas de Péricles e Aristóteles. A política aqui pertence à região do ser, é política de interesses. As demandas do meu grupo devem prevalecer sempre, mesmo diante do rosto do outro que me convida à compreensão.

Para onde nos voltamos, o outro nos interpela. Na agricultura, diante do agronegócio, o outro é o sem-terra; na questão racial o outro é o negro; nas relações de gênero o outro é a mulher; na sexualidade o outro é o homossexual; na questão religiosa o outro é o povo-de-santo do Candomblé; nas questões econômicas, o outro é o pobre. Uma boa imagem, seria a de uma mulher negra morando com sua companheira em um casebre ou vagando sem rumo, com a mesma, pelas ruas da cidade grande ou pelas estradas do Brasil.

Quando os novos tempos chegaram com sua abundância de contradições e com seus novos problemas, definiram o novo homem e a nova mulher como despolitizados. Ora, toda desconstrução pressupõe uma reconstrução e na repolitização da sociedade, a luta de todas as minorias foram ocupando um espaço que nos convida a novas análises. A sociedade é bem mais fragmentada do que nos faziam prever as grandes dicotomias, ressignificando a distribuição de poder, nos convidando a uma nova política.

Desse modo, nenhuma sociedade hoje pode fazer um programa político sem levar em conta a questão da alteridade, o outro em sua vivência concreta, em sua política cotidiana. Então, vamos apoiar as lutas das minorias e avançar para entender o que significa a anterioridade do outro, para alcançarmos afinal o estado político e o estado ético.

*Marcos Monteiro é assessor de pesquisa do CEPESC. Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA. Também faz parte das diretorias do Centro de Ética Social Martin Luther King Jr. e da Fraternidade Teológica Latino-Americana do Brasil
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